há várias portas abertas e nota-se que ninguém lá põe os pés há muito tempo. consigo contar mil e uma histórias em outros tantos sítios dentro daquela não-casa. a cama onde dormi, as escadas onde caí, a lareira que cheguei a ver acesa, o porão onde tinha medo de ir, o escritório que conheceu as tuas palavras, (...)
o silêncio é rei agora. fez um pacto com o vazio e apoderaram-se, juntos, daquilo que deveria ser para sempre teu num tempo qualquer sonho ou fantasia.
abri a porta de um armário. uma aranha cumprimentou-me e perguntou o que é que eu estava ali a fazer. disse-me que há muito tempo não via vivalma, depois fugiu por entre pratos, travessas.
no quarto estão sacos e malas no chão. malas por fazer, malas feitas à espera de viajar. não gosto daquele quarto, quase que bato com a cabeça no tecto.
esta não-casa já não me chama. não, esta não-casa já não tem tanto de ti. mas talvez seja mais simples do que isso, do que possa parecer. a tua casa nunca foi a tua casa, fomos nós. e tu continuas em casa, a casa continua a ser casa e será sempre a tua casa. viveste-me.
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