segunda-feira, 6 de julho de 2015

Meia dúzia de tristes fins. a casa há muito que deixou de ser casa apesar de ainda ser tua. Apesar de eu ter tentado, veemente, fazer dela uma outra casa que não fosse tua ao mesmo tempo. não, a casa é tua porque sempre foi tua. ontem decidi fazer-lhe uma visita. por necessidade, sempre por necessidade porque a vontade sempre doeu. ontem decidi fazer-lhe uma visita, abrir a porta e espreitar onde andas tu. não, aquela já não é a tua casa mesmo que ainda seja tua. aquilo nem uma casa é. é apenas um monte de pedras, um conjunto de móveis, alguns azulejos e um par de janelas. o chão está sujo,
há várias portas abertas e nota-se que ninguém lá põe os pés há muito tempo. consigo contar mil e uma histórias em outros tantos sítios dentro daquela não-casa. a cama onde dormi, as escadas onde caí, a lareira que cheguei a ver acesa, o porão onde tinha medo de ir, o escritório que conheceu as tuas palavras, (...)
o silêncio é rei agora. fez um pacto com o vazio e apoderaram-se, juntos, daquilo que deveria ser para sempre teu num tempo qualquer sonho ou fantasia.
abri a porta de um armário. uma aranha cumprimentou-me e perguntou o que é que eu estava ali a fazer. disse-me que há muito tempo não via vivalma, depois fugiu por entre pratos, travessas.
no quarto estão sacos e malas no chão. malas por fazer, malas feitas à espera de viajar. não gosto daquele quarto, quase que bato com a cabeça no tecto. 
esta não-casa já não me chama. não, esta não-casa já não tem tanto de ti. mas talvez seja mais simples do que isso, do que possa parecer. a tua casa nunca foi a tua casa, fomos nós. e tu continuas em casa, a casa continua a ser casa e será sempre a tua casa. viveste-me.

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